Hoje é Dia da Cidade

Hoje é Dia da Cidade
De Bocage, o nascimento
Em sessão, solenidade
Alegria e sentimento

Honrados os reformados
Outros recebem medalha
Os melhores são lembrados
A cidade que trabalha

A memória fica bem
Honrar a quem o merece
Justiça e sabedoria

E o futuro, só o tem
Quem o passado enobrece
E vive a cidadania.

 

Manuel Sadino
15/9/11 (Dia de Bocage)

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Sobre Bocage

Manuel Maria Barbosa du Bocage, nascido em Setúbal, no ano de 1765, de mãe de origem francesa, deixou diversa bibliografia. A sua vida atribulada e inquieta ainda hoje inspira muitos dos seus admiradores, foi invocada em filme por Leitão de Barros, mas também no Brasil, onde o poeta é muito considerado e mais recentemente em mini-série para a RTP. Em Setúbal existe uma associação cultural dedicada ao estudo e divulgação da vida e obra do poeta, o Centro de Estudos Bocageanos. Leia aqui alguns dos seus poemas.

O espiritual em Bocage

A verdade é que o nome de Bocage assume, para o vulgo, o anti-herói de um sempre renovado anedotário.
Extenso rol de factos jocosos, alguns deles lúdicos, quase todos sórdidos, todos eles falsos e falseados, que têm ornado a memória do autor quase sacrílego da “pavorosa ilusão da eternidade”. Manuel Maria Barbosa du Bocage que não foi toda a vida boémio, que foi, em contrapartida, o mais importante lírico que no seu tempo, no final do século XVIII, abriu espaço para o período romântico.
Ele foi, para o situarmos desde já, um pré-romântico, ou, conforme as palavras do Prof. Vitorino Nemésio, a quem muito iremos recorrer, um poeta com “vontade de Romantismo”, antecipando este numa “onda emocional de tristeza e horror de vida ansiosa e angustiada – como o definiu o professor – que não achando acolhida assimiladora no cerne da expressão poética, e, como que dela extravasando, se procure impor em cenários lúgubres, e na acumulação de palavras e elementos por si mesmo suscitadores de emoção”. Até do próprio Amor que na sua poesia nunca tomou o aspecto lúbrico que o povo reconta, falando quase sempre de aventuras que gostaria de transpor da ficção para a sua monotonia e que não é tema para tratar nesta conferência.

Ler o texto completo, de João Tomás Parreira, no “Arquivo”.

Celebrar Bocage hoje

Todos os anos, a 15 de Setembro, celebra-se o Dia de Bocage, feriado municipal em Setúbal. O sentido da celebração de Bocage no Portugal de hoje, aqui e agora, merece alguma reflexão sobre o legado daquele que é considerado o maior ícone cultural setubalense de todos os tempos.
O exercício é essencialmente hermenêutico, dado tratar-se de uma figura do longínquo século dezoito. Aqui deixamos três aspectos, a que pensamos dever dar relevância, para os setubalenses e todos os portugueses do século vinte e um.

O idealismo de Bocage
Os ecos da Revolução Francesa, a novidade de que era possível combater com sucesso a tirania, o absolutismo e o pensamento único, a ideia revolucionária da igualdade entre os homens, da sua liberdade e os ideais da fraternidade humana, estão colocados como pano de fundo histórico da vida do poeta.
A sua luta contra os representantes de uma religião do poder, figuras de opressão, ajudam a compreender a sua postura perante alguns com quem polemiza com gosto, convicção e até alguma violência verbal.
Hoje, não temos a opressão de uma religião, mas temos a do pensamento politicamente correcto, uma variante do pensamento único, que tanto pode levar um cidadão a mostrar a sua discordância contra o poder, como a favor do poder. Mas nos últimos tempos tornou-se moda, entre nós, ser contra o governo, democrático, qualquer que ele seja, e contra qualquer autoridade em geral.
Bocage inspira-nos não a ser contra os poderes, mas a ser a favor da liberdade e da verdade, independentemente de esta estar, num dado momento, com o poder ou com a oposição. Discordar do governo quando for caso disso, discordar da oposição quando se justifica.
O poder, quando é democrático, é legítimo. E se o é, não pode ser diabolizado, sob pena de descredibilizar a democracia. Alguns, talvez ainda por influência da deformação cívica e mental da ditadura salazarista, revelam preconceitos em apoiar um governo quando o merece, mesmo se for de outra cor política.

O primado da Arte em Bocage
Tenho para mim que o vate setubalense amava a Arte acima de tudo, em especial a Poesia. Quem se entrega seriamente ao desenvolvimento das artes, seja como mecenas ou como artista, está a fazer um favor a todos os seres humanos em geral.
O homem necessita do Belo, faz parte da sua dimensão ontológica (como, aliás, o Sagrado), do seu equilíbrio pessoal, da sua humanidade. E vai procurar encontrar essa dimensão estética nalgum hobby ou actividade, em consonância com os seus interesses pessoais.
O prazer que Bocage revelava nas tertúlias, na Poesia, na criação literária dão-nos a dimensão do seu apelo constante à Arte.
O ser humano não vive apenas da ética (ethos) mas também de uma estética que lhe faça sentido, porque o Belo não pode ser separado da dimensão humana.
Bocage é uma inspiração para o homem do século vinte e um, também por esta via.

O inconformismo de Bocage
Era um inconformista. Lutava como sabia e podia contra o que abominava. Fazia-o com toda a convicção e paixão, colocando em risco a sua reputação, e mesmo a sua vida, numa sociedade amordaçada como aquela em que viveu.
De todas as três, talvez esta seja a dimensão mais desafiadora que o grande poeta nos deixou como herança. Ele não se limitou a ser um lutador contra aquilo que achava estar mal. Apesar de inconformado, deixou uma grande obra, um legado exemplar ao país, às artes, à língua portuguesa e à humanidade.
Por isso, sejamos inconformados, sim, mas façamos a nossa parte.

Fonte: Brissos Lino, Setúbal na Rede, 15/9/09.