Textos bocageanos

A ESSÊNCIA ESPIRITUAL DO PENSAMENTO BOCAGIANO

Conferência proferida no âmbito das actividades culturais patrocinadas pela BARA-Associação Evangélica de Cultura, no Congresso Juvenil das Assembleias de Deus,  realizado em Setúbal, no dia 28 de Abril de 1979.

Falar de Bocage, no meio evangélico parece ser um acto arrojado. Com efeito, o poeta setubalense apesar de pertencer ao património da ilustração popular, é, com certeza, um hiato na Cultura de muita gente, seja esta evangélica ou não seja, e isto porque um erro se estabeleceu a seu respeito e lhe negou a honra.

A verdade é que o nome de Bocage assume, para o vulgo, o anti-herói de um sempre renovado anedotário.
Extenso rol de factos jocosos, alguns deles lúdicos, quase todos sórdidos, todos eles falsos e falseados, que têm ornado a memória do autor quase sacrílego da “pavorosa ilusão da eternidade”. Manuel Maria Barbosa du Bocage que não foi toda a vida boémio, que foi, em contrapartida, o mais importante lírico que no seu tempo, no final do século XVIII, abriu espaço para o período romântico.

Ele foi, para o situarmos desde já, um pré-romântico, ou, conforme as palavras do Prof. Vitorino Nemésio, a quem muito iremos recorrer, um poeta com “vontade de Romantismo”, antecipando este numa “onda emocional de tristeza e horror de vida ansiosa e angustiada – como o definiu o professor – que não achando acolhida assimiladora no cerne da expressão poética, e, como que dela extravasando, se procure impor em cenários lúgubres, e na acumulação de palavras e elementos por si mesmo suscitadores de emoção”.  Até do próprio Amor que na sua poesia nunca tomou o aspecto lúbrico que o povo reconta, falando quase sempre de aventuras que gostaria de transpor da ficção para a sua monotonia e que não é tema para tratar nesta conferência.

Mas sempre queremos dizer que o Amor em Bocage tomou a forma de vivência arrojada do poeta setecentista, novo-arcáde por filiação, a desejar e a decantar a morte, porém sempre a anelar a vida. A experiência da vida a que não são alheios, todavia, os sentidos e as vivências de vocábulos como labirintos e ciúme, abismo, grutas e cárceres, cenários em que Bocage buscou, recorrendo às personagens dos amores míticos da clássica Grécia, a recomposição do golpe de infidelidade da sua Gertrúria.
Da pesada névoa do seu silêncio, ou da sua noite, o poeta é assim que canta:
“A tristeza, o silêncio, o Medo, a Solidão, o Amor, o Crime”.

Bastante o Amor, que em Bocage foi amor fatídico, amor trágico, a denunciar-se em poemas que beberam o néctar do ensino das deidades da mitologia, em pleno século arejado pelos ventos da Revolução. Da França vinha o arejamento das ideias, o tom de todos os compromissos com a Igualdade, a Fraternidade, a Liberdade, que rompiam do exterior com força política. Também com a força literária, a estética da revolução no mundo das ideias e das Artes, com que a “Enciclopédia” dos Diderot, dos D’Alembert e dos Voltaire, não deixou de colocar em causa a contra-reforma do catolicismo português, a castidade da nossa unidade de fé, e o escolasticismo da nossa filosofia que nos autorizava uma cultura censória.
De todo este conjunto de factos, a poesia de Bocage que não é tocada pelo Humanismo que se reinstala após anos de Renascença, reflecte no entanto a Europa do seu tempo, e os acontecimentos que não podem deixar de marcar o espírito criador de um jovem de vinte e poucos anos. A sua idade e o local, provinciano mas de porto a exaurir-se em mar perto do qual viu a luz do dia e viveu alguns anos marcantes da sua vida, não o impediram de uma abertura que Pina Manique perseguiu, entre Lisboa e Setúbal.
O local onde decorre a infância é, simultaneamente com o influxo familiar, o modelador de um carácter infantil e adolescente, que por estar em formação assimila e é sincrético.

Um dos biógrafos do poeta, o escritor Mário Domingues, confirma o que digo na sua obra “Bocage, a Sua Vida e a Sua Época”: “ (…) Foi em Setúbal – diz – que os primeiros olhares curiosos de Manuel Maria, ultrapassando a barreira familiar, se espraiaram pelo mundo exterior. E o que era Setúbal no período da sua infância? Um burgo quase medieval, dentro das sólidas muralhas, de ruas tortuosas, algumas das quais sobreviveram até ao nosso tempo. Entrava-se e saía-se da velha cidade por quatro portas principais como que abertas a medo nesses pesados muros. Lá dentro vivia e agitava-se, com seus dramas, seus ridículos, suas intrigas, suas bisbilhotices, uma população densa que, alguns anos mais tarde, começaria a derramar as suas habitações para fora das muralhas, por já não caber em tão acanhado espaço”.

Ora bem. Bocage seria, com a sua obra poética, um retirante que repleto de um dinamismo de criador versifico iria derramar-se pelas ruas, pelos botequins, pelos “Nicolas” de Lisboa.

Começa aqui e em toda a sua vivência citadina, a tentativa de reencontro do poeta com a sua inocência e a sua imagem infanto-juvenil perdidas. Inicia-se aqui, com efeito, o caminho que pode conduzir-nos à essência espiritual, apesar de tudo, do denso pensamento bocagiano, ao seu complexo de Jonas – visão crítica e quase de psicanálise do autor de “Mau Tempo no Canal”, numa palavra, à sua redenção. Com ela confessa a vida dissoluta do seu passado, destrói as visões míticas do seu báratro, inferno clássico à moda de Dante sem demónios, exprime um arrependimento paredes-meias com o remorso, “aspira a uma morte com Deus – como escreveu Feliciano Ramos – e manifesta a crença na eternidade”. E este vocábulo em que acreditavam os filósofos gregos que discutiram com o apóstolo S. Paulo no Areópago de Atenas, e os sábios antes deles, não é de nenhum modo a eternidade estética que o belo quadro ninfeu “Bocage e as Ninfas”, exposto no Museu de Setúbal, parece prenunciar. É, efectivamente, essoutra eternidade que se prende com o mistério – e o mistério é sempre a primeira palavra que nos surge em Teologia. É aquela eternidade que nenhuma prostração ou sofrimento, ou que nenhum acto heróico, podem modificar ou anular.

Ao contrário, o célebre verso “Já Bocage não sou” dá-nos o tamanho do desejo da anulação bocagiana, não da eternidade, mas, do tempo que com tantas más horas, pingos de lama e facécias, contribui para a punição além túmulo, exarada nos Evangelhos. O Bocage de “quarenta anos de idade e mais de vinte de genebra e de noitadas”, com a morte escondida e disfarçada de uma dilatação da aorta e, mais tarde, de um aneurisma que o prostrou, será que sabe da eternidade? É bem possível, porque quase sempre a apetência do eterno, o apelo da divindade, salvas as devidas proporções desta imagem, crescem no ser humano entre o Botequim das Parras – o lodo, a prática da iniquidade – e a prisão no Mosteiro de S. Bento – a prática de uma religião. Neste último lugar, esteve Bocage em 1798, condenado pela Inquisição por erro religioso, razão sobeja para se submeter à pena de receber doutrina.

Seja como for, se outra coisa não proporcionou a Bocage, este período atribulado da sua vida sempre sob os olhos argutos do Intendente da Policia, o Pina Manique (que também servia a Inquisição servindo o Estado), trouxe ao poeta uma virtude que Vitorino Nemésio classifica como a de “entrar em si”.

Bocage foi, indubitavelmente, a partir de 1799, um poeta a procurar por si mesmo. Até então, os louros do improviso repentista tinham ajuntado à sua volta a juventude, o que, decerto, o obrigava a estar sempre, como um anti-herói, para lá de si próprio, acima da sua circunstância.

Leia-se uma ou outra página de crítica de Almeida Garrett, para ficarmos com a convicção de uma força que, centrifugamente, arrancava Bocage da sempre preciosa introspecção, do auto-exame a que, noutro contexto, o Apóstolo das Gentes aos Coríntios se referiu. “ (…) Bocage – diz Garrett – a quem seu fado, por mais aventureira lhe fazer a vida, levou ao antigo teatro das glórias portuguesas, voltando da Ásia foi recebido entre os aplausos dos muitos admiradores que já tinha deixado na viril infância de seu talento poético. Aumentou-se esta admiração com os novos improvisos do jovem poeta, com a extrema facilidade, com o mui sonoro dos seus versos. O fogo de suas ideias ateou o entusiasmo geral; a mocidade inflamou-se com o nome de Bocage: de entusiasmo degenerou em cegueira, em mania; não lhe viam já defeitos; menos ele em si mesmo”.

Das palavras do grande poeta romântico que foi Garrett, fica indelével a ideia de que Bocage exerceu, em certo período da sua vida, as funções de uma figura de estilo retórico: uma hipérbole, que lhe extravasou a vida. E a mania do hiperbolismo, do exagerar, é tanto mais perigosa quanto se sabe que anda a par com o impossível, que está vedado ao ente humano.

Porém as exagerações têm um fim, e mesmo que nos terrenos da Arte se ande preso de fantásticas criações, existe sempre a hora (não a “hora absurda” com que Mário Sacramento falou sobre Fernando Pessoa) mas a hora dos absurdos que se vencem, a hora do senso comum em que se pretende o retorno a si mesmo. O complexo de Jonas.

Por um mergulho na psicanálise vamos colher o sentido do complexo de Jonas, o apelo (da garganta faminta) da fauce hiante do abismo, a sedução do entrosamento com a profundidade, o retorno a uma forma de existência aquosa uterina. Porém, este complexo com todos os estudos científicos e os demais ismos que conhecemos hoje, é posterior ao personagem bíblico, profeta menor que ao fugir para Tarsis, fugiu rumo a si mesmo, ao seu bem-estar e amor-próprio. Inflectindo o caminho da responsabilidade evangelizadora, Jonas quis “fugir dos próprios olhos”, “num barco ilhando as memórias” – como há anos escrevi em poesia. Ou menos poesia do que a contida no Alcorão, que no seu Cap. XXI, 87, coloca Jonas a retratar-se perante Deus na escuridão dizendo: “Com efeito, eu estive entre os injustos”. Seja como for, Jonas assume o valor de um símbolo futuro, nas Sagradas Escrituras e na veracidade do seu facto de náufrago engolido por um grande peixe.

Nada disto se passou, todavia, com Bocage, para além duma “sondagem ao horrendo” – no dizer do Prof. Óscar Lopes. Seja como for, nem a boca faminta do abismo o engoliu, nem a vivência até certo ponto desastrosa o elevou a símbolo. No entanto, o complexo de Jonas parece ter sido algo que sempre o obsedou, como desejo de regresso ao ventre materno.

Neste sentido é ainda Vitorino Nemésio que nos vem dizer que toda a complacência imaginosa de Bocage é atracção do abismo devorador, da caverna e do labirinto, sombria portanto, angustiada e anárquica. O reflexo de queda moral, “eufemizado” imaginariamente, torna-se equivalente a ser engolido e devorado, e, muitas vezes, envenenado por “letais” venenos servidos em “negra taça”. O Prof. Nemésio, declarando fazer fé no psicanalista Bachelard, segundo o qual o complexo de Jonas pode ser uma particularidade do complexo de desmame, admite que toda a sedução pela noite, pela morte, pelo abismo, em que  Bocage se excedeu, é proveniente da morte precoce da sua própria mãe. O desaparecimento de D. Maria Joaquina Xavier quando o poeta tinha apenas 10 anos de idade, terá podido contribuir para uma orfandade andante sobre vagas, sedenta de amparo e de carinho. Estas afectividades terá Bocage procurado recriar plasticamente, liricamente, na frialdade de múltiplas paixões, de vãos arremedos de colos maternais, num constante vai-e-vem que só mais tarde, em jeito de tragédia, se amansou.

Como quer que seja, deste complexo, de que atrás falamos, e do acontecimento remoto da morte da senhora mãe, não queremos deixar de salientar um aspecto que nos ocorreu e que bem pode relacionar-se com um desdobramento da personalidade do poeta. Útil foi, a nosso ver, esse desdobramento.
Primeiro, porque operou um desequilíbrio entre boémia, o desdobramento, e a vida analisada e vivida agora pelo “Canon” e pela visão da auto-crítica. Segundo, porque o seu desejo de inocência fez pender o prato da balança do “eu” de Bocage e da sua “circunstância” – para usar uma expressão contemporânea do filosofo Ortega y Gasset – e ao fazê-lo, orientou-o se não para a inocência, pelo menos para uma forma de denunciar uma completa mudança. Mudança de costumes e de vivências de alguém que dir-se-ía estar com pena suspensa.

A verdade é que até no tratamento do tema morte, Bocage modificou o sentido da sua linguagem poética, ainda que não de todo as palavras:

O retrato da morte, ó Noite amiga,
Por cuja escuridão suspiro há tanto
Calada testemunha do meu pranto
De meus desgostos secretária antiga!
……………………………………..

E vós, ó cortesãos da escuridade,
Fantasmas vagos, mochos piadores,
Inimigos como eu, da claridade!

Em bandos acudi aos meus clamores;
Quero a vossa medonha claridade,
Quero fartar meu coração de horrores!

Este soneto é típico de um desespero, é reflector com todos os seus ingredientes da falsidade de um Romantismo que estava à porta, e reflectindo de uma tomada de posição quase “reaccionária” – passe o termo com seu sentido reagente – contra a sociedade iluminada daquele século XVIII, de fátuas felicidades que o poeta contestava. Por isso mesmo cede o passo a outro tipo de expressão emocional, mais carregada da realidade, mais denunciadora de uma verdade que começa a despontar na vida falaciosa de Bocage.

Aos dois lustros a morte devorante
Me roubou, terna mãe, teu doce agrado;
Segui Marte depois, enfim, meu fado
Dos irmãos e do pai me pôs distante.

Vagando a curva terra, o mar profundo,
Longe da Pátria, longe da Ventura
Minhas faces com lágrimas inundo.

E enquanto insana multidão procura
Essas quimeras, esses bens do mundo,
Suspiro pela paz da sepultura.

Um outro soneto, dá-nos, no entanto, outra virtualidade do pensamento do nosso poeta, isto é, aponta-nos a susceptibilidade de vir a acontecer uma mudança na mente de Bocage a respeito da Morte. Muito mais próximo da linguagem de sentido bíblico, lembrar-nos-á certamente de alguns Salmos davídicos, onde a morte integra o limite da vida, percute-nos, na mente, a similitude que existe entre a vida humana e a folha de erva e a nuvem que passa, dá-nos notícia, enfim, da nossa pequenez perante o Eterno. O Deus que, apesar de tudo, um pouco menor que os anjos nos criou.

Tudo acaba. Esse Monstro carrancudo,
Prole do Averno, efeito do pecado,
Tudo a cinza reduz, brandindo irado
Com sanguinosas mãos o ferro agudo.

Oh fatal desengano, horrendo e mudo
Em pavorosos mármores gravado!
Oh letreiros da Morte! Oh lei do Fado!
É verdade, é verdade: acaba tudo.

Eis o nosso misérrimo destino:
Assim ordena quem nos Céus impera:
Basta, adoremos o poder divino.

Reprime os passos, caminhante, espera,
E no epitáfio do infeliz Josino
Lê o teu nada, o que tu és pondera.

Obra circunstancial em poesia, derivada de um tempo concreto que vinca o sentimento do poeta, possivelmente a ida ao cemitério onde repousa D. José Tomaz de Meneses, filho do Marquês de Marialva, falecido desastradamente no Rio Tejo em 1790 – é uma pequena obra-prima característica de um sentido de auto-crítica que passa do eu para o nós, da individualidade – tão comum ao gosto literário do romantismo – para a universalidade.

Tudo isto à conta do complexo de Jonas – que os críticos do poeta nele vislumbraram – e da obsessão da morte. Mas entre imaginação dinâmica, confronto com o abismo que tanto causa repulsa como atracção, existe a humaníssima individualidade em que os chamados sonetos autobiográficos assumem na obra bocagiana posição importante.
“Já Bocage não sou” e “Meu ser evaporei na lida insana” são exposições em que o poeta iniciou a assumpção de uma serenidade moral, que alguém presumiu ter chegado a Bocage “com a aproximação da morte que lhe simplifica a vida”. De que resultou o desaparecimento do “falso Bocage”, o Elmano Sadino que o iludiu.

Já Bocage não sou!…À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento…
Eu aos Céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura.

Conheço agora já quão vã figura
Em prosa e verso fez meu louco intento.
Musa!… Tivera algum merecimento,
Se um raio da razão seguisse, pura!…

Eu me arrependo; a língua quase fria,
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fantástico corria:

Outro Aretino fui… A santidade
Manchei… Oh! Se me creste, gente ímpia,
Rasga meus versos, crê na Eternidade!

Dificilmente este soneto se poderia considerar, coisa comum na época, como um simples ornamento. Os gostos do final do século XVIII, os ornamentos da linguagem, as grandes tiradas retóricas dos poetas de então, com um pé no pré-romantismo e o outro no romantismo, se não lhe negavam a fama, tornavam, no entanto, o poeta num ser subalternizado – segundo os estudos sobre a Cultura Portuguesa da autoria do Prof. Joel Serrão.   Faziam dos vates, funcionários da elegia, do epicédio e da ode de louvor a “a”, “b”, ou “c”. Viviam os poetas então, à míngua do subsídio dos mecenas.

Fugindo à regra, e muito antes do tempo das autobiografias poéticas e do apaziguamento moral, Bocage contactou directamente com o grande público e foi-lhe necessário – escreve o Prof. Joel Serrão – “explorar a literatura de cordel, dirigida ao povinho de fracos recursos económicos e de incultivados dotes de apreciação estética”.
Sabe-se, porém, que em fase de retratamento e de redenção, começou a dissipar-se em Bocage a aura de sátiro à solta pelas ruas de Lisboa, feito cópia fiel de outro Aretino, poeta satírico e malévolo que fez rir a Itália renascentista, e inicia o repouso na espiritualidade que procuramos nesta conferência, e que existe, indubitavelmente, na sua obra final.

Sempre tenho tido dúvidas, no entanto, acerca da ligação que Bocage estabeleceu entre a Eternidade e Morte: “O meu tormento – disse – leve me torne sempre a terra dura”. Seja como for, a redenção mais ética que espiritual operada no nosso poeta, se tem pouco a ver com a Fé evangélica, terá, contudo, uma lição a ditar sobre o arrependimento.
Não o arrependimento procedente do temor evangélico que é temor de quem não peca para não entristecer o coração de Deus, e que é contrário, na sua natureza psicológica, ao temor legalista que opera no homem o medo de pecar por causa do castigo. Assim, a lição mais apropriada, aquela que se pode colher do que alguns críticos do poeta chamaram a sua redenção, é a lição dos remorsos do homem que evaporou o ser “na lida insana”.

Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel de paixões, que me arrastava;
Ah! Cego eu cria, ah! Mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana.

De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mais eis sucumbe Natureza escrava
Ao mal que a vida em sua origem dana.

Prazeres, sócios meus e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube
No abismo vos sumiu dos desenganos.

Deus oh Deus! …Quando a morte à luz me roube
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.

Pois bem. O poeta quis dizer que no momento da morte redimir-se-ia, no tempo psicológico, quiçá fisiológico de instantes breves, de tudo quanto ao longo dos anos foi perdendo. Mais do que redenção, eu diria que se trata de achamento. Achamento de uma boa consciência para morrer da sabedoria, para entrar nos páramos eternos.
O Bocage final deseja, por fim, a dignidade. Pode-se, contudo, ir mais longe nos dois versos derradeiros do célebre e belíssimo soneto.

Com efeito, é essencial para entendermos o último Bocage, interpretarmos com exactidão, esses dois versos, sobretudo o último, que Nemésio considera a chave da poesia bocagiana.

Dá-nos o verso, de facto, a informação preciosa da mudança mental e espiritual do poeta. Cambio ético – já o disse – porém mudança de estado de espírito, também. Não resisto ao apelo para citar um breve excerto de um texto do Prof. Nemésio a propósito do tema: “De facto, Bocage, o perpétuo desadaptado, não soube viver, não só porque, moralmente, se enganou e desviou do recto caminho, mas porque, por condição e natureza, era predestinado para a ânsia dos desatinos”.

Os distúrbios espirituais do poeta foram eles mesmos que, por renegação a segundo plano, encerram o bardo num labirinto de dédalo donde apenas poderia sair pelas asas da morte – daquela morte que cantara em terríveis gargalhadas, esfomeado de horrores, ansioso do conúbio com “a morte agónica, mas por fim pacificante” – no dizer do Prof. Óscar Lopes.

Assim, o verso chave que parece indicar-nos uma transposição para lá da morte, que parece mesmo falar de um adormecer no mais puro sentido evangélico, é ao invés uma reflexão menos sobre o limite da vida que acerca da qualidade do viver. Não havia em Bocage a esperança da oração poética de David: “Satisfar-me-ei da tua semelhança quando acordar”.

Naturalmente entende-se que Bocage, não podendo ou não sabendo atingir essa vida de qualidade, que “malgré lui” idealizava, volta ao seu complexo de Jonas e reclama, pelo menos, morrer com dignidade. O facto é que o destino de Bocage foi, sempre, ter através da morte que repensar a vida.

E quando é pelo pensamento sobre a morte e na sua obsessão que balizamos nosso viver – nascerá em nós, inevitavelmente, uma incerteza, uma desesperança na eternidade, e surgirão os indícios do Medo.

Algo que caracterizava o verdadeiro cristão, evangelicamente cristão, é a ausência do medo de morrer. O medo, qualquer medo levado às últimas consequências, animaliza o homem – escreveu Aldous Huxley. Pela parte que nos cabe, não é este o caso. Porquanto existe Esperança, melhor, o Nome que nos desvia os olhos da fauce do abismo. Repare-se que o refúgio espiritual de que há notícia na linguagem bíblica é altíssimo – e apropriamo-nos, neste vocábulo, do duplo sentido que possuímos na nossa língua.
Isto é, o nosso refúgio é Deus e localizado em lugares muito altos. O patriarca Job, robustecido por uma paciência capaz de fatigar Deus, conhecia Este tão intimamente que O sabia capaz de “pôr os abatidos num lugar alto”; ou o próprio profeta menor que foi Naum, o cantor das desgraças inevitáveis de Nínive, cujo conhecimento que tinha de Deus lhe dizia que Ele é “uma fortaleza no dia da angústia”. Outros exemplos bíblicos poderia referir, ainda que em expressões compósitas que contrastariam sempre com os vocábulos, os sentidos e os ambientes de medonha encenação, tais como monstruoso pélago, grutas cavernosas, numa palavra, o horror do abismo.

Pois bem. Por todo o esquema psicológico da poesia de Bocage, não quero porque não é possível, recuperar o poeta para o lado evangélico. Penso até que o próprio catolicismo romano, através da funesta Inquisição, o rejeitou. Não tanto pelos seus remorsos sem esperança, ou pela sua “Pavorosa Ilusão da Eternidade” – escrita sob a influência dessa grandiosa obra que é “Metamorfoses”, de Ovídio, mas muito mais pela sua vida airada. No entanto, em 1942 surge obra dedicada à poesia Religiosa (Católica Romana) na Língua Portuguesa, e Bocage está lá, a meu ver, mal representado. Dir-se-ia que a recuperação não foi a melhor, porque foi efectuada através de um mero proselitismo intelectual, ou seja, ao nível de uma representação em Antologia, dita de poesia religiosa.

Há, todavia, a consciência de que em Bocage, “dificilmente chegamos a reconhecer uma linha doutrinária” – conforme escreveu a escritora Esther de Lemos. No entanto, a mesma escritora defende a ideia de que a raiz lírica bocagiana é profundamente cristã. Escreveu ela que é “cristão, o sentimento de culpa, os soluços de remorso, os gritos de ideal”, que é “cristã a sua adesão ao mistério, a sua consciência de uma realidade que o transcende; cristãs as verdades que proclama a força da Providência, a responsabilidade do arbítrio humano, (…) a vida extra-terrena entendida como prémio ou castigo, (…) o apelo para uma moral que é raio da graça divina”. Sejam ou não cristãs as suas quedas lúcidas e as suas tentativas de redenção, o facto é que não posso concordar, totalmente, com o seu traço psicológico e espiritual, do “sistema doutrinário” do poeta.

Sei, porém, que a última insatisfação terrena de Bocage que a estrutura linear do seu pensamento religioso, que o teve sem dúvida, não chegam para o constituir como um cristão evangélico, que não é bem a mesma coisa que ser cristão no sentido geográfico do termo. Este está mais preso a uma civilização cristã que no Concílio de Trento, iniciado em 1545, relegou o protestantismo se não para a condição da barbaria, pelo menos para as passadas heresias medievais que o próprio catolicismo romano deu à luz.

Bocage, contudo, tinha nos seus últimos poemas, o ímpeto criador de uma linguagem quase bíblica. A concepção de Deus em Bocage é exemplar. Do seu conhecimento de Deus, o mesmo não se poderá dizer. A verdade é que o vocábulo conhecer e conhecer Deus, tem na linguagem hebraica um significado espiritual que ultrapassa a mera morfologia ou a semântica do termo. Conhecer Deus, para o israelita, era executar os Seus mandamentos, fazer a Sua vontade. Era sentir Deus com a alma, o espírito e o corpo. Não apenas por frios mecanismos religiosos, estéticos e racionais.

Bocage queria saber de Deus pela Razão. De resto, ao pretendê-lo, deixou para a posteridade literária, belos sonetos em que a intimidade com Deus se não se mostra possível, pelo menos deixa entrever uma concepção divinatória marcada pelas obras da Criação, em termos lúcidos mas também algo panfletários. Em termos de irrequietude linguística, o panfletarismo poético de Bocage extravasa a liberalidade própria do panfleto, acusatório ou sarcástico, e vai ao cerne de algumas questões religiosas, nomeadamente no soneto “O Retrato de Deus, desfigurado Por Ministros Embusteiros”. Diz o poeta: “Um criador funesto à criatura, / Eis o Deus que horroriza a Natureza, / O Deus do fanatismo ou da impostura”.
Ao dar-nos esta notícia de como a religião instituída do Portugal ultramontano do século XVIII, no auge da Inquisição subalternizava Deus, Bocage consegue uma imagem, de trevas feita, de um deus desconhecido dos Cristãos. Porventura, um Titã meio-pagão, meio-religioso, que servia os interesses dos bispos, dos padres e dos frades. Um deus minúsculo que nascia da exploração do susto dos fiéis. Numa palavra comum ao tempo do Santo Ofício, um deus índex.

No entanto, no mesmo soneto existe a antítese, isto é, o contrário sobre Deus. Com efeito, Bocage assoma à superfície da ideia teológica, judeo-cristã de Deus. “Um Ente, dos mais entes soberano, /Que abrange a Terra, os Céus, a Eternidade; / Que difunde anual fertilidade / E aplana as altas serras do oceano; / Um númen só terrível ao tirano, / Não à triste, mortal fragilidade, / Eis o Deus que consola a humanidade, / Eis o Deus da razão, o Deus de Elmano”.

Numa tradição claramente camoniana, de erudição apreendida ora na linguagem religiosa islamo-judaica-cristã, ora na clássica, Bocage não pode deixar de cantar, numa frase genérica, mas em imorredoiro soneto, a Existência de Deus, provada pelas obras da Criação.

Os milhões de áureos lustres coruscantes
Que estão da azul abóbada pendendo;
O Sol e a que ilumina o trono horrendo
Dessa que anima os ávidos amantes;

As vastíssimas ondas arrogantes,
Serras de espuma contra os céus erguendo,
A leda fonte humilde o chão lambendo,
Lourejando as searas flutuantes;

O vil mosquito, a provida formiga
A rama chocalheira, o tronco mudo,
Tudo que há Deus a confessar me obriga.

E para crer num braço, autor de tudo,
Que recompensa os bons, que os maus castiga,
Não só da fé, mas da razão me ajudo.

Não só para, equilibrando mais a sua linguagem, moderando as imagens, escrever sobre a Paixão de Jesus Cristo, mas para remeter raios e coriscos sobre o mundo ingrato, pois que não entende o significado profético e universal da morte expiatória do Filho de Deus.

Bocage escreve, com efeito, sobre a crucificação: “O Filho do Grão-Rei, que a monarquia, / Tem lá nos céus, e que de si procede, / Hoje mudo e submisso à fúria cede, / De um povo que foi seu, que à morte o guia”.
E impreca os crucificadores: “Tu julgas teu juiz!… Teu Deus condenas!”
Apelando por fim: “Ah! Castigai, Senhor, o mundo ingrato! / Caiam-lhe as maldições, chovam-lhe as penas! / Também eu morra, que também vos mato”.
Percebe-se, neste poema de que lemos excertos, as transferências entre o mundo judeu e o Cristo de quem falou Isaías em imagem pascal, quando se referiu ao “cordeiro” levado mudo para o matadouro; ou as viagens entre o universo conjurado para fazer sucumbir Jesus Cristo e a própria individualidade do poeta, que também intervém na causa do sofrimento vicário do Senhor. Um erro apenas pesquisamos e levantamos neste soneto: de modo nenhum o povo foi quem julgou Cristo, no sentido espiritual. Condenou-O à morte, isso sim. Escreveu o nosso profeta Isaías que a Deus “agradou moê-lo, fazendo-o enfermar”.

Porém, à liberdade poética, é-lhe permitido hiperbolizar. Desta forma, Bocage ao preocupar-se poeticamente sobre temas religiosos, sempre exagerou. Tanto assim que seus sentimentos exagerados, levaram-no a exclamar, ainda em soneto à moda dantesca: “Fira-me a contrição, torne-me o siso, / Acode-me, Senhor, põe-me diante / Morte, Juízo, Inferno e Paraíso”.
Ao glosar este tema, polivalente, Bocage demonstra que a essência espiritual do seu pensamento deambulou sempre no pessimismo marcante das suas melhores obras. O dom da tristeza irreprimível e a sua mensagem de morte, foram substrato e veículo para se individualizar, não como o boémio que se conhece e sobre o qual se exagera, mas como um místico guardião das portas da morte, ávido da eternidade diria de Deus: “Ó tu que tens no seio a eternidade” – o que é psicologicamente revelador de uma consciência de limitação individual, sonharia apenas em tons escuros “neste horrível sepulcro da existência” – quando se referia ao cárcere – onde “negra ideia do abismo assombra a mente”.
Sôfrego de liberdade, perguntaria: “Liberdade, onde estás? Quem te demora?”.
Vivo, reflectiu sobre a vida em dissídio consigo mesmo, o que pelo menos levou-o a sair da sátira e da literatura de cordel, para os versos que foram o modo de expressar a sua comoção.

A diferença entre o Bocage que o povo mal conhece e o Bocage sofrido pela disciplina da sua exageração e da sua descrença é, justamente, o denominador comum que encontramos na imagem de um Bocage, doente de alma, “representando um papel de génio torturado, de amante sem esperança, de cristão penitente” – como dele escreveu Esther de Lemos.
Numa imagem vê-se, apenas, o sentido da memória, os contornos fixados de alguma coisa que nos marcou – assim foi, a meu ver, Bocage: uma imagem do vendaval que, a partir dos seus dez anos, sobre ele se abateu. Ou melhor, uma imagem do que foi Bocage antes da morte de sua mãe: uma criança com uma infância bruscamente cortada. Diz o Prof. Hernâni Cidade, que ele foi um “autentico depoimento humano”, através da sua obra, e da sua vida em que se perdeu “a esperança de um grande amor em lar feliz e o anseio da glória militar”, donde o “seu irrequietismo de sempre”.

Convém, no entanto, terminar, não sem dizer que o frequentador de vielas populares e de botequins mal-afamados, foi, sobretudo, o claro equívoco da sua sinceridade. Ninguém, para além de Bocage e na literatura portuguesa, assumiu – no irreprimível desejo da sepultura – uma tão grande pugna contra esse escândalo adâmico que é a morte.

A outra palavra com que se designa o fim, que sempre perseguiu Bocage, e que nem à hora da morte poupou à contradição ou, se quiserem, à sinceridade da sua vida. O facto é que Bocage acaba por morrer em Dezembro de 1805, exactamente quando – conforme narra José Régio – “o dono dum botequim que frequentara lhe granjeava o sustento dos últimos dias vendendo por Lisboa, de porta em porta, os “Improvisos de Bocage na sua mui perigosa enfermidade”.

E a enfermidade de Bocage, foi ter morrido demasiadamente, enquanto vivo.


João Tomaz Parreira

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